terça-feira, junho 12, 2007

O gosto de viver


A minha avó tem oitenta e seis anos. Pesam-lhe os olhos azuis, húmidos, de quando em vez. Notam-se rugas que já foram sorrisos desmedidos. Tem as mãos ásperas e corroídas pelos anos de labuta, e alguns ossos que, só voltaram a estar unidos, pela teimosia de continuarem a suster o corpo. O seu rosto está polido e cansado de olhar o horizonte, sempre com a perspectiva de quem espera um amanhã com incerteza de ele chegar. Tem medo que ele não chegue; o mesmo que lhe faz tremer a vista. Tem medo. Muito. Sabe que se as pálpebras fecharem, levam consigo as histórias que ela trouxe ao mundo e roubam-lhe pedaços que o mundo lhe deu.
Aqui no campo sempre foi assim. Respira-se muito mais do que ar que nos invade os pulmões. Ela sabe bem que sim. Ninguém lhe ensinou, mas sabe. Talvez seja isso que procura quando se perde no meio das ervas, se senta sobre elas e vagueia, com um raminho na mão, por um outrora que agora é só memória. Perde-se nessas viagens e quando a chamo, custa a responder. Não sei o que recorda, talvez os comprimidos lhe tragam a adrenalina e o gosto de relembrar o perdido. Gosta de fotografias, e de outras tantas coisas banais, talvez por lhe apaziguarem o esquecimento.
O coração já bate a medo, com a impiedosa certeza de que o som que ele lhe traz, a conta-gotas, será eco quando ninguém esperar ou quando toda a gente desesperar. Mas ela teima. Não pára. Quer mexer e remexer a terra que a viu nascer. Quer fruir com o suor que lhe escorre pelas estrias dos três filhos que trouxe ao mundo, e com o sufoco do marido que enterrou há largos anos. Mas continua. Sempre o fez. Mais ou menos coxa.
A dimensão deste peso, poderia exceder qualquer bengala, que lhe carregasse as peripécias de uma vida inteira por contar.
Só não corre porque as pernas têm um peso insuportável. Mas sei que fecha os olhos e voa. Trava uma batalha diária para acordar da noite em que se deitou na véspera.
Sonha muito, às vezes acordada outras vezes nem tanto.
Está-me, impreterivelmente, no coração. No mesmo que bateu, bate e baterá; inúmeras vezes, pasmo das certezas que lhe encontra.

Um comentário:

atalmijinha disse...

o texto, simplesmente, não é deste mundo...tocou m mm...Embora que agora fiquei um pouco pensativa, o que antes dos exames não da jeitinho algum. Vai pa jornalismo ou eu juro k morreras de uma morte mt dolorosa. lol