terça-feira, julho 24, 2007

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Estavam ambos deleitados com a brisa da madrugada. O dia avizinhava-se quente com era habitual na época. Ela, aninhou-se nele e pediu um cigarro. Fumou-o até à exaustão, enquanto observava o seu reflexo na água da piscina. Deitados na relva, com as mãos dadas, pareciam clandestinos, como se fosse proibido respirarem.
Maria era esguia e já deixava transparecer sequelas dos dois filhos que trouxera ao mundo, em quarenta e dois anos de existência. O mesmo mundo que agora não lhe conhecia paradeiro. Era como se todos se tivessem esquecido que eles existiam. Não falavam, limitavam-se a ouvir a estar ali. Fecharam os olhos e nada mais existia. Quando ela os abriu, tinha passado um tempo que custou a precisar. Puxou Afonso para si, acariciando-lhe o rosto polido e a testa franzida que possuía há trinta e nove anos. Olhou-o nos olhos e perguntou-lhe:
_ Amas-me ou estás habituado a mim?
Ele, que olhava o céu ainda meio atónico com a inesperada abordagem, teceu um sorriso meio ingénuo, como se voltasse a ter treze anos. Olhou-a e proferiu.
_ Amo-te muito para além da libido que despertas em mim. Estamos há quinze anos casados, e nunca, por um segundo, foste meu compêndio. Creio que somos muito mais que uma vida a dois. Não penso em ti apenas quando fazemos amor, nem tão pouco esse amor está manchado pelos anos. Quando uma música passa é de ti que me recordo. Lembraste da primeira música que ouvimos juntos? Da primeira ida ao cinema? Da primeira carícia? Da nossa primeira vez? Dos risos aparentes? Das insónias por tanta coisa?
Lembro-me de tudo, com pormenores que o tempo não apagou porque te tenho a ti. Não sei se isto é amar. Sei que és a parte de mim que não abdico.
_ Será? sorriu Maria.
_ Shhhh, ouve o vento. E vamos juntos.

Um comentário:

atalmijinha disse...

adro estas tuas histórias! Quem escreve tal texto tem k sentir necessariamente paixão! Só falta o acto sexual para ser perfeito!