quinta-feira, janeiro 18, 2007

Casualidades


Perdi o conto às vezes que de sorrateiro chegavas sem eu pedir, trazendo contigo sorrisos forjados a um lado do avesso que nunca deixaste que te conhecesse. Depois, no mesmo ápice com que um olhar se confunde com uma acção, viravas as costas por saberes que se o desejo de eu te levar até a um esconderijo nosso pudesse ser real, estaríamos os dois perdidos e sem vontade de encontrar o que quer que fosse.
A saudade deve ser a via mais longa e íngreme de se percorrer. Por maior que seja o fôlego, a combustão imobiliza qualquer tentativa de avanço. A certa altura, andamos só para vencer o frio. Reparamos que as mãos têm frieiras, o rosto está polido devido à gélida aragem e os pés teimam em renunciar ao peso do corpo. Somos atirados para a valeta sem que nada nem ninguém nos tenha empurrado. Só quando ouvimos o barulho dos que passam pelo alcatrão na via principal esquecendo as valetas, é que compreendemos que seríamos lixo comum, caso tudo se resumisse a uma única estrada onde as abas não encontrassem local para existir e, na qual, as valetas fossem apenas um pedaço a amputar.
Os dias vão, levando consigo a vontade e deixando somente um corpo entregue ao fracasso carnal. Posteriormente, numa qualquer hora de ponta apanhamos boleia. Contudo, temos peso a mais connosco para poder avançar. Por isso, vamos progressivamente eliminando o que nos parece estar só por estar. Se ao menos fôssemos um usual baú,
cujo conteúdo estivesse a abarrotar de coisas que facilmente se confundissem entre tantas outras, poderíamos desde logo seguir viagem. Mas não, porque é no umbigo de uma espécie de morfina que encontramos guarida.
Por fim, quando tudo se resume à incapacidade de sequer soltar um grito, ficamos a meio do caminho e isso pouco interessa, pois já perdemos muito mais do que carga física. Perdemo-nos. Perdi-te.

3 comentários:

André disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
riverfl0w disse...

Só perdemos quem chegámos a encontrar! Muito bonito, parabéns!

atalmijinha disse...

ayfromthesuno k mais me interroga, quando leio um texto assim, k nos deixa a pensar em como podemos expressar certas coisas, é o k o criados estava a pensar no acto de criação! Penso sempre assim, k pensamento, k sentimento o levou a comunicar tal coisa a sociedade para enriquece la com algo tão intimo. Mais um monumento teu minha querida amiga! Ainda espero o teu livro sim, sim não me esqueço nunca desta exigencia!!!