domingo, janeiro 28, 2007

Outros tempos, outros amores...

Nestes dias, a minha avó pediu-me para a ajudar a procurar o cartão do utente, perdido algures na sua mala. Como já lhe conheço os compartimentos de cor, ajudei-a prontamente. Naquela busca intensiva, achei por mero acaso, uma carta que lhe foi endereçada há sessenta e sete anos, tinha ela na altura dezoito. À primeira vista, parecia um singelo papel a juntar à restante tralha que lá reside. Porém, achei curioso o facto de estar tão bem dobradinho, que resolvi desenrolá-lo. Quando comecei a lê-lo, só parei no fim. Estava tremendamente bem escrito para o grau de estudos da época. Começava assim:
Menina Conceição, levarei rodas de parvo por lhe escrever, mas prefiro correr esse risco do que sepultar à nascença estas palavras em mim”. Depois continuava com uma subtileza que hoje em dia tenho dificuldade em encontrar. Linha após linha, notei por detrás daquelas locuções, um sentimento coeso. Não eram palavras soltas ou dizeres alheios cujo único intuito é encher o papel, pois estava tudo encaminhado de tal forma que me causou um friozinho na barriga. Era nítido o carácter viril da época, saltando à vista uma educação requintada. Terminava com a seguinte frase: “Não tenha vergonha de falar comigo no fim da missa. Lá a aguardarei”.
Após ter lido aquela inconfidência, já desgasta pelo tempo, olhei para a minha avó e antes de qualquer tentativa de comentário, ela esboçou um sorrriso comedido e disse-me: “Já lá vão uns anos, mas fiz questão de a preservar”.
A carta deu em namoro, mas não em casamento. Coisa rara na época. Tentei averiguar o motivo do rompimento da relação, ao que conclui que a força desmedida dos meus bisavôs para que tudo terminasse, foi superior a qualquer sentimento. O homem daquela gentileza toda morreu e os meus avós acabaram por se casar.
Fiquei a pensar em muita coisa, como no suporte de uma relação apenas consumada à janela ou eventualmente por esporádicas visitas a casa, sob a alçada minuto a minuto dos pais.
Em pouco mais de sessenta anos, o mundo deu uma reviravolta gigantesca. Hoje já ninguém namora à janela, nem tão pouco vai à missa com um lenço na cabeça. Mas será que o amor naquela época não era, realmente, à prova de bala?
Actualmente, a facilidade das coisas e a leviandade da própria maneira como se gosta para no “minuto” seguinte se ser indiferente, destruiu grande parte da beleza que o amor acarreta.

Um comentário:

atalmijinha disse...

Namorar a janela, nunca!!! Eu revoltava me, hoje em dia a busca de prazer corporal intenso é k preeche as nossa vidas. lol Mas essas coisas realmente tem o seu encanto, embora fraco. adrt bju