terça-feira, janeiro 09, 2007

Zé-povinho, ciência e deus

O atestado de adolescente surge quando somos obrigados a questionar o mundo. Fazemo-lo numa tentativa de perceber o que nos é extrínseco e edificar o que é intrínseco, por forma a não papar, pura e simplesmente, as opiniões alheias. Questionar é aquilo que dá sabor à vida. Por isso, questiono-me sobre muitas coisas e às vezes, como hoje, sobre deus.
A religião entra onde a ciência se cala. Não se invoca deus para explicar a razão pela qual as rodas de uma bicicleta giram, nem por que é que está céu azul num dia de calor intenso de verão. Não se coloca deus nessas coisas, pelo facto da ciência explicar. Mas, a partir do momento em que não se consegue apontar o porquê, concebe-se um deus. Sempre foi assim desde os primórdios da humanidade e assim será, pois a ciência nunca decifrará tudo e haverá sempre necessidade de a mistificar. Quando não há explicação objectiva, existe uma entidade sacra como motor impulsionador de tudo. É assim a comum ideia de deus: Ele está em tudo e é o tudo. Sendo o tudo não é o nada. Este último, diz o povo em jeito falacioso, não é relevante se pensarmos no todo. Será, porventura, a insignificância da meretriz.
Ora, assim sendo, o deus do Zé-povinho não é o mesmo deus da ciência. O Zé-povinho, que é a figura elucidativa do vulgo, crê no mistério da vida segundo Jesus Cristo. A ciência escarnece o Zé-povinho e mostra-lhe que Adão e Eva não são mais que uma mera parábola. Ao que ele ri, pestaneja e só não solta uma palavra indecorosa porque é bem-educado. Mas, pensa para consigo, que com estas ideias, afirma ele novatas, o mundo caminha para uma ida sem retorno. Uma ida à heresia abusiva. É a mesma coisa que dizer a uma criança do primeiro ano que também existem números negativos. Ele certamente olharia com o espanto próprio da idade e não compreenderia. Afinal o mundo dos crescidos não o seduz grandemente.
O Zé-povinho acredita na igreja porque recebeu a sua doutrina desde pequenote e nunca a questionou verdadeiramente. Confia na imaculada paixão de Cristo como tábua rasa para a salvação de si mesmo. Reza terços, pede a deus tudo e mais alguma coisa. Mas, bem lá no fundo, não O consegue conceber nem apontar as razões para a sua crença.
Contrariamente a este, o deus da ciência é um deus anti senso comum. Se troveja não é porque Jesus está a ralhar. Chove porque é uma questão de equilíbrio natural e indispensável. A perfeição desse deus está, portanto, na complexidade da vida. Do planeta que nos alberga e do resto do tal todo. Agora o todo faz sentido, por não ser taxativamente o que resta das outras partes que não estão incorporadas na somatória. Interessa rebuscar, procurar, investigar com fracassos desmedidos ou pequenos triunfos. Estaríamos na idade da pedra se não se tivesse acreditado que era possível ir à lua. Mas, a verdade é que se avançou quer fosse a medo ou com coragem gratificante. Fomos à lua e viemos. Pisámos o universo além Terra. Ousámos contestar as leis que durante muito tempo estiveram sob domínio teoricamente não alcançável, apenas como constituinte do segredo do(s) deu(s). A ciência acredita no não crível e sustenta as bases dessa crença, não mítica mas terrena.
Assim, a ciência e o Zé-povinho, duas formas distintas de crer na existência, poderiam completar-se mas estão em campos não complementares e, possivelmente, sisudos. Esta e o conhecimento vulgar representam, talvez, a matéria mais discordante que a humanidade conhece. Contudo, nascemos para o senso comum, mas é com a ciência que vivemos.
Não obstante, todas as nações acabam por se objectar acerca da vida para além da morte. Aqui não entra nem Zé-povinho nem a ciência, pelo menos directamente. Morreremos apenas para dar lugar aos outros ou partiremos para outra morada não perecível? É precisamente neste ponto que há necessidade de acreditar no que não se vê.
A vida não depende de quaisquer crenças. Gira por critérios bem definidos e por vezes desconhecidos. Rege-se por si, não necessariamente por alguém. Aprendeu sozinha como se construir e como construir os outros. Dia após dia tem mutações, mas nunca deixa de ser o leme de tudo. E, quando o homem a quer igualar, ela cinge-se à sua infinita grandeza e reduz esta criatura à insignificância do seu ser. Mostra-se secreta em alguns domínios como o da morte ou não vida. Verosimilmente até nem tem secretismo algum porque não tem de haver, por força da obrigação, vida depois desta que nos constitui. Haverá, no entanto, sempre a necessidade de acreditar que sim. Já dizia António Gedão: “ O sonho comanda a vida”.
Alimentar a crença num deus, é alimentar a pequenez humana tentando sobrepujá-la a um plano divino de perfeição, não atingível. Contudo, a necessidade agudiza o desejo e fá-lo sustentar, desmesuradamente, a crença no invisível afim de apaziguar limitações humanas.
Crer não é nem pode ser um acto leviano. Existirão, porventura, deus levianos.

Um comentário:

Luís M. P. disse...

Mais um excelente tema, a ser rebuscado para esta nova "mosfera" "Blogosfera". O interesse deste tema, até fez com que eu assine com o meu nome pessoal e não o ficticio. Essa pessoalidade está bem patente no teu post, visto que é uma excelente análise, geometricaportuguêsmente (grande neologismo) construida, aliada à fundamentação pessoal sustentada. Mas não concordo totalmente com a tua opinião.
A vida tem uma grandeza muito grande, é verdade, mas se não for a grandeza da humanidade a vida não atinge esses niveis. Deus é apenas um implucionador para que a humanidade viva bem, atinja a sua grandeza e a própria grandeza da vida. Para chegar à grandeza, Deus não quer a prefeição, mas sim que a humanidade actue da melhor forma para que o bem destrua o mal, se a balança entre o bem e o mal tombar para o 1º lado, é essa a missão que Deus quer cumprir.

Termino com um conselho "Vive a vida ao máximo, faz o bem, não olhes à prefeição"
Continuação de uma excelente escrita!Lol! Jks***